Querida Anne...
quando penso em diários eu só consigo lembrar da última página escrita do seu e o quanto eu me identifico com as coisas que escreveu ali sobre você. Não que eu não tenha me sentido tocada com o restante do seu diário, na verdade você sempre foi minha inspiração neste quesito, mas naquele 1° de agosto de 1944 você se descreveu como um feixe de contradições, uma pessoa dividida em duas: uma Anne petulante, despreocupada, rasa, e a Anne profunda, quieta e boazinha.
Você escreveu..." Então a Anne boazinha nunca é vista quando tem companhia. Ela nunca fez uma única aparição, embora quase sempre suba ao palco quando estou sozinha. Eu sei exatamente como eu gostaria de ser, como eu sou... por dentro. Mas infelizmente só sou assim comigo mesma. E talvez seja por isso-não, tenho certeza que é por isso-que eu me considero feliz por dentro e outras pessoas pensam que sou feliz por fora."
Também sou uma contradição, assim como você existe mais de uma versão de mim, algumas vezes até mais de duas arrisco dizer. Talvez a Anne de fora não seja tão parecida comigo em alguns quesitos, mas assim como a Anne de dentro, existe uma Lizz tão profunda e oculta quanto, e é esta que se perde muitas vezes por conta das suas versões exteriores. Eu não quero que ela se perca querida Anne... as outras Lizz vêm ganhando espaço cada dia mais, sufocando e apagando aquela Lizz que pouco se revelou, ou quase nada ao longo de minha vida.
Ela já não não quer mais subir ao palco e estar sob holofotes tanto assim, minhas outras versões, a sociedade e a vida não permitem mais também, mas eu ainda preciso dela, da verdadeira Lizz pra me guiar, porque sem ela eu sou um caos mesmo que não venha a transparecer por fora algumas vezes, sem ela eu me sinto perdida e sozinha, porque sem ela eu me sinto um ninguém.
Pensando nisto escrevo aqui novamente, pra dar voz , pra registrar, monitorar a Lizz de dentro, pra que mesmo se um dia ela venha a se perder eu saiba encontrá-la. Acredite, eu gostaria que essa Lizz tivesse se sobressaído ao invés de ter se limitado dia após dia. Quando o mundo diz "Está vendo? Olha o que você se tornou", é ela que grita e dilacera meu coração, como quem diz "Eu ainda estou aqui". É a Lizz boazinha que me salva de mim mesma, mas também é minha criptonita,
A ela peço perdão por tê-la diminuído a um tamanho insignificante. E a você querida Anne obrigada por me ouvir.
Sua Lizz
Nenhum comentário:
Postar um comentário